sexta-feira, 9 de agosto de 2013

EXPOSIÇÕES - JORNAL PUBLICO - ÍPSILON



É a partir da memória pessoal das decorações de rua nas procissões e festas religiosas dos Açores que Catarina Branco trabalha
ANA RITA VIEIRA



Uma escrita só dela
Depois dos Açores, Catarina Branco mostra o seu trabalho em Lisboa. Luísa Soares de Oliveira
Caligrafia
De Catarina Branco.
Lisboa. Carpe Diem - Arte e Pesquisa. R. de O Século, 79. Tel.: 211924175. 4ª a Sáb. das 14h às 20h. Até 17/08.
Instalação.
Catarina Branco vem de S. Miguel, onde há cerca de ano e meio apresentou uma individual notável nos museus Carlos Machado e de Arte Sacra. Chega agora a Lisboa, onde tem as melhores peças da desequilibrada exposiçãoPróximo Futuro, a decorrer nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian: esculturas feitas de papel recortado e outros materiais, que recordam peças etnológicas de uma distante cultura.
Simultaneamente, inaugurou Caligrafia, instalação feita numa das salas do Carpe Diem - Arte e Pesquisa. Trata-se de uma peça de chão, onde formas brancas delimitam espaços geométricos repletos de confetti de diversas cores, inspirada pelas decorações de rua nas procissões religiosas dos Açores. O título que escolheu para este trabalho fornece todas as pistas necessárias para a sua leitura: apesar do seu carácter rígido e das referências óbvias a um Sol LeWitt, por exemplo, tudo nesta peça releva da marca identitária de Catarina Branco, uma marca que é exclusivamente sua e que, tal como a caligrafia, não pode confundir-se com a de outro artista.
É necessário recordar aqui as fontes de inspiração de Catarina Branco. Formada nas Belas-Artes de Lisboa, foi obrigada há alguns anos, por razões de saúde, a abdicar dos químicos contidos nas tintas e nos diluentes de que se servia para pintar. Decidiu então começar a trabalhar com papéis coloridos, que tinham também a vantagem de retomar uma tradição açoriana e familiar: a dos enfeites em papel para as festas do Espírito Santo, que uma das avós da artista executava em Fenais da Luz durante as férias de Verão. Esta recordação, e o trabalho de reflexão sobre a identidade própria que se lhe segue, estão na base de toda a obra plástica de Catarina Branco, embora seja mais evidente nas peças tridimensionais (como as do jardim da Gulbenkian) do que aqui.
Por conseguinte, a instalação Caligrafia é um resultado mais estilizado e sintético desse trabalho de reflexão a que aludimos do que as peças mais emblemáticas da sua obra. Formalmente, há pequenos detalhes que desviam saudavelmente os seus resultados da actualização revivalista. Neste caso, trata-se da utilização do confetto colorido e da manutenção da grelha branca, que nos tapetes de chão feitos com pétalas de flores é retirada após o preenchimento de cada espaço. Deste modo, o que temos aproxima-se mais do desenho do que da repetição de um elemento de um ritual. A referência que fizemos a LeWitt é por isso pertinente, como o seria qualquer outra a um Morris Louis, por exemplo, ou a um Ad Reinhardt. A grande diferença consiste no rebaixamento dos referentes que, aqui como noutras obras, é fruto dos materiais escolhidos: em vez de pintura, papelinhos de desfile de Carnaval; em vez da forma geométrica traçada a régua e esquadro, ripas de madeira presas com cola e pregos, pintadas de branco.
Deve-se ainda assinalar que este processo, que parte da memória pessoal e colectiva, íntima e simultaneamente religiosa, para construir uma obra plástica, é um processo que encontramos no trabalho de muitas mulheres artistas, mas que é absolutamente inédito no nosso meio. Este não é o olhar exterior que Joana Vasconcelos deita sobre a tradição portuguesa. Mas também não é o olhar arrogante que decorre do discurso estéril e ideologicamente duvidoso que incensa uma suposta portugalidade (ou açoreanidade, neste caso) e abstrai de tudo o que não se coaduna com a fórmula escolhida, que pretende fazer renascer das cinzas um modelo pertencente a uma cultura desaparecida; encontramo-lo hoje por todo o lado, da música aos crafts, tanto mais berrante quanto mais global é o mundo em que nos movemos. O seu modo de trabalhar é outro: para Catarina Branco, a memória pessoal é coisa viva, actuante, e é a partir dela que desenvolve um corpo de trabalho necessariamente contemporâneo, sem pretensões doutrinárias. E o que faz é, de facto, muito bom.