quinta-feira, 4 de julho de 2013

2009/2010 - Fenais da Luz - Galeria Fonseca Macedo - São Miguel - Açores / 2012 - Indigências - Igreja de São José - São Miguel - Açores





















































                                                                   O Dragoeiro - papel recortado - 175X110X16cm - Galeria Fonseca Macedo


 


O Dragoeiro

A seiva, vermelha e alquímica, corre nas veias negras do papel. Traça-lhe um destino, conta-lhe um segredo. A mão não sabe por onde avança. O corpo mistura-se com a lâmina, a cola com a resina. O dragão confia-nos uma memória de sangue. Os dedos colhem os frutos, os séculos golpeiam o sábio silêncio das folhas.

Renata Correia Botelho













 
 

Fenais da Luz


A vida recortada em matizes.
A vida recordada em matizes.
As manhãs e as noites. Ou a lua que já desponta enquanto o sol habita ainda o horizonte.
O rigor branco e negro das gaivotas questionando o mar, o amarelo das conteiras nas encostas. A força verde com que a ilha se lança na lonjura. 
O manto azul e protector com que a lonjura regressa à ilha.
Uma música antiga subindo a rua, calcando de pétalas os passos alinhados e entrando, com uma flor em cada nota, pelas janelas abertas.
A alegria da festa, do riso casto, dos rebuçados desenrolados com o nervosismo de quem espera descobrir, no embrulho recortado com uma arte de criar sonhos, o mapa do tesouro. O mapa da vida.

Tudo coisas simples, afinal, que nos vão sobrando dos dias. Mistérios coloridos que se evadem e regressam, num jogo de luz e sombra, como a velha faia à espera da madrugada. Ecos alojados na alma, que dão um rumo à nossa pele e um mapa às memórias.
E, sempre, o tempo – esse espelho tosco com que fintamos a morte – apontado para nós como a lança do arqueiro. Incolor, de todas as cores. Por um instante, apenas, hesitante. Mas depois implacável, sem retorno. A grande certeza do mundo a avançar na nossa direcção, a inexorável verdade da seta – que, a um brevíssimo suspiro da colisão, só pelas lembranças aplacamos. Como um bater de asas salvador, quando a tempestade se anuncia.
As peças da Catarina Branco são isso mesmo: uma travagem, um levantar voo. A seta abranda, dá à infalibilidade da rota um pequeno intervalo de luz. É nesse intervalo que tudo nos é dado a ver, pela explosão de cor de algumas peças em contraste com a severidade monocromática de outras.

Fenais da LUZ é então o sítio, real e simbólico, onde esta teia se forma. Por entre o silêncio do feno (e “fenais” deriva do termo “fenal”, pelo muito feno que havia no lugar) levanta-se a exuberância da LUZ. Da inquietude onírica das peças a preto e branco (em que, como num sonho, nos afundamos em serpentes e em flores, em fetos, corações, aracnídeos, dispostos numa simetria quase assustadora) passamos para a vigília colorida das lembranças: o correr das estações, as flores colhidas para enfeitar as casas e semear de beleza as ruas no passar da procissão, os guardanapos recortados e dispostos sobre a mesa, fazendo de cada prato um recipiente de alegria, as luzes acesas rompendo a noite como um arco-íris.



A vida dita pelos desígnios de uma lâmina.
Porque a mão, ao recortar este papel, assina-o. Dá-lhe um nome e um espaço, a proximidade quente de um verso familiar, lembra-lhe o grande segredo cósmico que já todos esquecemos.
E devolve-o, pelo golpe silencioso do gume, à seiva da velha faia – na sua espera, antiga e paciente, das cores que regressam em cada madrugada.

Renata Correia Botelho
Ponta Delgada, Novembro de 2009
 
 
 

 

 



01/14/2010
 
Catarina Branco
 
Na última feira Arte Lisboa foi uma das obras que atraíam a atenção e que tentei fotografar. Hoje inaugura uma exposição individual onde essa e outras peças próximas de Catarina Branco (Catarina Castelo Branco, n. 1974, Ponta Delgada /São Miguel) se apresentam como um corpo de trabalho coerente e em desenvolvimento. A surpresa resiste ao primeiro encontro e sustenta-se como um aliciante nó de referências, sugestões e expectativas. Longe, em Ponta Delgada, Açores, Galeria Fonseca Macedo.
 
Fenais da Luz é (também) o nome de uma povoação, uma freguesia do concelho de Ponta Delgada (fenais parece vir de feno, fenal, lugar de muito feno).
O papel recortado a preto e branco que se viu em Lisboa dá agora também lugar a composições de cor e em relevo, mais complexas - as referências figurativas parecem desaparecer na acumulação das formas que se dirão decorativas. É a classificação como Desenho que se propõe.
 
Em Fenais da Luz fazem-se tapetes de flores nas ruas, por ocasião da festa religiosa. (As pétalas são às vezes substituídas por aparas de madeira pintadas). É uma referência possível. Também lembram as obras em plástico recortado de José Escada, mas aí a presença da figuração teria outra origem.
Seria talvez possível referir os desenhos recortados da afro-americana Kara Walker (a relação é improvável, o sentido das obras é outro), mas é seguramente mais proveitoso conhecer a tradição dos papéis recortados, seguindo para começar as fontes referidas em Benjamim Pereira, "Bibliografia Analítica de Etnografia Portuguesa", de 1965, reed. do Instituto dos Museus e da Conservação em versão fac-similada, que pode ser baixada gratuitamente, em formato pdf, no site do IMC.
 
 
"1.7. TRABALHOS EM PAPEL
690 CORREIA, Vergílio — Papéis recortados ornamentais. ATP, 1, Lisboa, 1916, p. 151.
Breve nota sobre os papéis recortados, de cores, que nos concelhos de Montemor, Mora e Coruche, colam directamente sobre a cal da parede, como grafito. Menção da velha tradição dos papéis recortados conventuais e seculares dos séculos XVIII e XIX, e, principalmente, indicação de costume idêntico e mais perfeito, no povo da Ucrânia e da Polónia.
691 FREITAS, Eugénio Andrea da Cunha e — A arte do papel recortado. APP, 1, pp. 235-263, 26 figs.
O trabalho apoia-se no estudo de Emanuel Ribeiro «A arte do papel recortado» e em artigos dispersas de João Rosa, Abel Viana, Luís Bernardo Ataíde, Luís Chaves, Virgílio Correia e Augusto C. Pires de Lima, dos quais faz extensas transcrições. Foca o contributo das freiras neste capítulo, descrevendo a riqueza e fantasia dos papéis recortados, usados geralmente como enfeite de caixas de doces, adornos de castiçais, etc. Descreve os papéis recortados usados como ornamentos das prateleiras, de paredes, de balões, lanternas para as luminárias em festas religiosas, etc. Descreve também certos brinquedos infantis, como por exemplo os papagaios ou estrelas, barcos, etc., e ainda cartas de amor, arcos de festa e flores artificiais.
692 M., C. — À margem de gulodices. FL, I, Lisboa, 1929, pp. 159-162.
Pequena notícia de papéis recortados que servem para polvilhar de canela os pires de arroz-doce e aletria." (...)

 
 
 
Feira de Arte Contemporânea em Lisboa - 2009 




 
 
 






 















                      
                                                                                                       Pieces of me - papel + caixas em acrílico






 
   Viagem  - Papel recortado à mão - 175X110X16cm 
 
 
 
 

 
   Viagem  - Papel recortado à mão - 175X110X16cm 











     Viagem  - Papel recortado à mão - 175X110X16cm 












 







     Viagem ( pormenor)  - Papel recortado à mão - 175X110X16cm 


 
Catarina Branco sucede a Urbano em instalação de arte contemporânea
As peças “Piece of Me” e “Em Viagem”, de Catarina Branco, vão suceder à obra “Kenosis”, de Urbano, instalada desde junho na igreja de S. José, em Ponta Delgada, aquando da inauguração do projeto “Indigências”.
Em nota enviada ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, a paróquia anunciou que a sessão de apresentação das peças da artista micaelense decorre esta sexta-feira, às 19h00.
«A amplitude e profundidade» do trabalho de Catarina Branco, «jovem e promissora artista», segue «a geografia de um imaginário popular, estabelecendo relações internas e coesas, que cruzam a abstração», refere o texto.
A sua obra «homenageia a graciosidade do povo e, na sua complexa gramática criativa, anuncia por inteiro um talento emergido no contexto contemporâneo da insularidade açoriana», acrescenta a nota.
“Piece of Me” e “Em Viagem” estarão em exposição durante agosto e setembro, procurando «catalizar os poderes sagrados condensados no espaço ao culto do divino».
A sessão inclui um recital de aproximadamente 20 minutos «que percorre mais de quatro séculos da história da música europeia, dando simultaneamente a conhecer as possibilidades tímbricas do órgão da igreja de São José», construído em 1797 pelo organeiro português Joaquim António Peres Fontanes.
Isabel Albergaria interpretará obras de Girolamo Frescobaldi (1583-1643), Johann Sebastian Bach (1685-1750), Carlos Seixas (1704-1742), Cécile Chaminade (1857-1944) e Flor Peeters (1903-1986).

O padre Duarte Melo, pároco de S. José, em S. Miguel, diocese de Angra, explicou ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura que o projeto “Indigências” tem como prioridade contribuir para que «a arte seja lugar e espaço de diálogo e de denúncia, a partir das realidades da pobreza e das misérias que povoam o Campo de S. Francisco», onde se situa a igreja.
A iniciativa «pretende chamar a atenção da sociedade que essa realidade existe e que os cristãos e as pessoas de boa vontade devem agir a partir da beleza, da arte e das diversas gramáticas estéticas que durante um ano e meio vão ser mostradas nos espaços da igreja».

Director do Museu Carlos Machado
 
Duarte Melo